Complexo de Vira Lata

Complexo de Vira Lata

Complexo de Vira Lata.


Durante toda minha vida pensei que este sentimento era somente nosso, dos brasileiros. 

Estou descobrindo que ele atinge mais gente do que eu pensava.

Por que nos sentimos como vira lata?

Como disse Nelson Rodrigues, devem existir razões históricas para isso.

Nós brasileiros não somos originários de culturais ancestrais, como os Persas, os Chineses, os Indianos e outros mais. 

Nascemos como uma colônia de Portugal e como todas as outras colônias, nossas riquezas foram profundamente exploradas durante séculos e nossos povos originários foram “aculturados” pelos jesuítas ou massacrados por exploradores, como os Bandeirantes. 

Jesuitas e a "aculturação"
Os bandeirantes e o massacre dos indígenas

Nossa colonização inicial se deu pela transferência de propriedades para as mãos de capitães e donatários, pequenos nobres portugueses, de 1534 a 1753, num processo conhecido com Capitanias Hereditárias.

Esse modelo de administração já havia sido adotado em outras colônias portuguesas anteriormente.

A partir de 1753, durante as reformas do Marques de Pombal, o modelo passou a ser centralizado nas capitanias gerais, diretamente subordinadas à coroa portuguesa.

A independência no Brasil não nasceu de uma ruptura com a Coroa, mas de um acordo das elites, mantendo a monarquia, dirigia por um herdeiro da Coroa Portuguesa, que manteve a unidade nacional, os privilégios das elites, a escravidão e o completo distanciamento das camadas populares.

De certa forma, não construímos uma identidade nacional baseada em visões comuns de nação. Nossas elites mantiveram o poder sob sua tutela, mantendo os laços culturais com a metrópole e nossa história é tipicamente colonialista.

Afastado do poder, o povo tem dificuldades para afirmar sua capacidade de decidir seu futuro e de reconhecer as grandes conquistas dos país, além da sua diversidade cultural, do Carnaval e do Futebol.

Trocamos o colonialismo português pelo colonialismo americano, ante o poder econômico e político dos Estados Unidos após o término da Segunda Guerra Mundial

O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem.
Eis a verdade: não encontramos pretextos, pessoais ou históricos para a autoestima

Historicamente somos produtores de commodities e importamos os produtos de valor agregado. As grandes empresas multinacionais, instaladas no Brasil, são em geral os produtores de bens e serviços oferecidos no nosso mercado.

Um referencial histórico de identidade nacional foi a criação da Petrobrás, que nasceu de um forte movimento popular, apoiado pelos estudantes, pelos militares, com forte inspiração nacionalista denominado O petróleo é nosso.

A Petrobrás se consolidou entre as maiores exploradoras de petróleo do mundo, desenvolvendo tecnologia inovadora de extração, que hoje é licenciada em consórcio com diversos países.

Ela resiste ao movimento dos vira latas que representam os interesses do grande capital estrangeiro, em particular dos EUA.

Como a Petrobrás, o Brasil desenvolveu tecnologia de ponta na extração de mineiros com a Vale do Rio do Doce, hoje, Vale e uma das maiores produtoras de minérios do mundo.

Na década de 1960, foi criada a Embraer, que hoje é líder de mercado no segmento e jatos executivos e em jatos comercias médios e que recentemente passou a se afirmar no setor de Defesa Aérea.

Se procurarmos em nossa história recente, veremos dezenas de motivos para nos orgulhar da nossa capacidade de criação e desenvolvimento, apesar da imensa lacuna educacional que persiste em nosso país. 

O fato é que nossas elites colonialistas não querem o futuro do Brasil baseado em um desenvolvimento autônomo. Preferem manter o poder como capatazes do capital internacional e do império dos EUA.

 Isso está claro em nossa política atual, onde os vira lata da extrema direita e do centrão sabotam nosso desenvolvimento autônomo, enquanto juram fidelidade a Donald Trump.

Outros com complexo de Vira Lata?

Tive a oportunidade de conversar recentemente com alguns (poucos) europeus sobre a situação política mundial.

Evidentemente, a preocupação com futuro é geral, considerando a avaliação que fazem da Europa, das condições de vida e das incertezas.

Sobre as relações com os EUA, as pressões politicas sobre o movimento armamentista, a redução da natalidade e a evasão dos jovens. eles expressaram a preocupação com a pressão sobre os custos do Estado com Aposentadorias e saúde em geral.

Avaliando a relação dos EUA com a Europa, surgiu então os sinais de complexo de Vira Lata.

As pessoas com quem conversei acreditam que a Europa possui uma dívida histórica de gratidão com os Estados Unidos, pelo apoio à reconstrução pós guerra.

Não é possível generalizar uma posição com alguns poucos resultados de conversas. Mas tende a mostrar o peso histórico do Plano Marshall na reconstrução da Europa. É como se a Europa humilhada pela destruição provocada por ds guerras mundiais, que aconteceram no coração do seu território, tivesse perdido sua dignidade ao depender dos EUA para se reconstruir.

Mas a história não é bem assim

Distante do cenário de guerra, com seu território e infra estrutura protegidos, os Estados Unidos saem da Segunda Guerra Mundial como os grandes vitoriosos. A Rússia, por sua vez, passou pela revolução de 1918 e ascendeu como uma grande potência na Europa, mesmo tendo sofrido pesadas perdas durante a guerra, foi a primeira força armada a tomar Berlim.

Formam-se os blocos de influência que iriam se opor durante toda a Guerra Fria, até a queda do muro de Berlim: Os Estados Unidos e a União Soviética.

O argumento foi a guerra contra o comunismo, configurando o período da Guerra Fria.

A contrapartida para o apoio à reconstrução da Europa foi o alinhamento político com os Estados Unidos, contra a União Soviética e dependência do capital Norte Americano.

 

O Plano Marshall e os benefícios para os EUA

Plano Marshall

 

Para entender os ganhos dos EUA, é preciso enxergar o Plano Marshall não como caridade, mas como um investimento geopolítico de altíssimo retorno. Os americanos saíram do programa com ganhos que iam muito além do econômico, consolidando sua posição de superpotência global. 

Seguem os principais:

1. Ganhos Geopolíticos e Estratégicos (O Mais Importante)

**Contenção do Comunismo:** 

Este foi o ganho mais crítico. Ao recuperar a Europa Ocidental, os EUA impediram que o desespero econômico pós-guerra levasse os eleitores franceses, italianos e alemães a votarem em partidos comunistas alinhados a Moscou. O plano funcionou como uma “arma anticomunista” silenciosa, estabilizando democracias frágeis e criando um cinturão de aliados leais contra a União Soviética.

**Liderança do Mundo Ocidental:** 

Os EUA deixaram de ser uma potência isolacionista e assumiram o papel de líder do bloco capitalista. Ao ditar as condições da ajuda, os americanos estabeleceram-se como o árbitro central da política europeia, com uma influência que rivalizava e, em muitos aspectos, superava a dos impérios coloniais britânico e francês.

**Enfraquecimento das Potências Coloniais:** 

O plano pressionou indiretamente o Reino Unido e a França a abandonarem seus impérios coloniais. Ao condicionar a ajuda à abertura de mercados, os EUA aceleraram a descolonização, substituindo o antigo sistema de impérios fechados por um novo sistema de mercados abertos sob sua influência.

2. Ganhos Econômicos Diretos (O “Business” do Plano)

**Criação de um Mercado Consumidor Gigante:** 

Uma Europa destruída não tinha dinheiro para comprar nada. O Plano Marshall injetou dólares nos bolsos dos europeus, que imediatamente os usaram para comprar **produtos fabricados nos EUA** (tratores, aço, trigo, máquinas, automóveis). Entre 1948 e 1951, as exportações americanas para a Europa dispararam, criando um ciclo virtuoso que ajudou a economia dos EUA a evitar uma recessão pós-guerra.

**Padrão Ouro-Dólar e Hegemonia Financeira:** 

A ajuda foi paga em dólares, o que forçou os países europeus a acumularem reservas na moeda americana. Isso consolidou o dólar como a principal moeda de reserva internacional, um status que foi formalizado com os Acordos de Bretton Woods. Na prática, os EUA ganharam o “privilégio exorbitante” de financiar seus déficits imprimindo a moeda que todos os outros precisavam usar para comerciar.

**Abertura Forçada de Mercados Europeus:**

Os EUA exigiram, como contrapartida, que os europeus reduzissem barreiras alfandegárias e cotas de importação. Isso destruiu os antigos sistemas de protecionismo e permitiu que gigantes americanos (como a Ford, Coca-Cola e IBM) entrassem e dominassem o mercado europeu com muito mais facilidade nas décadas seguintes.

**Recuperação do Capital Investido:** 

Historicamente, estima-se que cerca de **90% do valor do Plano Marshall voltou diretamente para os EUA** na forma de compras de bens americanos. Além disso, os lucros gerados pelas empresas americanas na Europa recuperaram, com folga, o valor “doado”.

3. Ganhos Políticos e Institucionais (O Poder Estrutural)

**Controle sobre a Alemanha:** 

Ao integrar a Alemanha Ocidental na recuperação e na OECE (Organização para a Cooperação Econômica Europeia), os EUA garantiram que o potencial industrial alemão fosse reconstruído sob sua supervisão e alinhado ao Ocidente, evitando que a Alemanha fizesse um novo acordo com a Rússia (como ocorrera no Tratado de Rapallo, em 1922).

**Exportação do “American Way of Life”:** 

O Plano não enviou só dinheiro, mas também técnicos, engenheiros e consultores americanos. Eles difundiram o modelo de produção em massa (o fordismo), a administração científica e a cultura do consumo. Isso criou uma elite europeia (políticos, empresários e sindicalistas) treinada na mentalidade americana, que passou a enxergar os EUA como o modelo a ser seguido.

**Base Militar Permanente:** 

Uma Europa economicamente dependente e agradecida aceitou, sem grandes resistências, a criação da OTAN em 1949 (pouco depois do plano). Os EUA ganharam o direito de ter bases militares permanentes em solo europeu pela primeira vez em tempos de paz, garantindo sua projeção de poder global.

Em resumo:

Os EUA gastaram cerca de US$ 13 bilhões, mas colheram um retorno monumental. Econômica e financeiramente, o dinheiro voltou na forma de vendas, acesso a mercados e hegemonia monetária. Politicamente, eles transformaram a Europa Ocidental em um “satélite voluntário” – uma região próspera, estável e militarmente alinhada, que serviria como o principal teatro de operações (e escudo) contra a URSS nos 40 anos seguintes. Foi, talvez, o investimento de política externa mais bem-sucedido da história dos EUA.

Fonte: Pesquisas baseadas em IA.

Não existem dívidas a pagar

Na prática os Estados Unidos fizeram um grande investimento. Graças ao Plano Marshall, se tornaram uma potência econômica global com forte influência sobre todas as economias do mundo.

O governo americano explora ete sentimento de dívida para aumentar sua pressão sobre aUnião Européia e obriga-la a se curvar às suas vontades. 

As declarações de Donald Trump e do vice-presidente J.D. Vance sobre a Europa e sua dependência dos Estados Unidos seguem uma linha dura e consistente, que pode ser resumida em uma mensagem clara: a Europa precisa assumir a responsabilidade pela sua própria defesa e deixar de ser um “vassalo” dos EUA.

Dois exemplos recentes:

  • Os Estados Unidos impuseram a obrigatoriedade de aumento dos gastos militares para manter a OTAN
  • Trump exigiu que a Europa, através da OTAN participasse da sua guerra absurda contra o Irã, liberando suas bases militares na União Europeia para as operações e exigindo a participação da UE nas batalhas pelo Estreito de Ormuz.
 

Esta atitude hostil de Trump contra seus parceiros históricos, as elites europeias, está provocando um sério atrito. 

O chanceler alemão, Friedrich Merz, mencionou que a reivindicação dos EUA à liderança global foi “desafiada e possivelmente desperdiçada”

A saída para a Europa é o multilateralismo

Multilateralismo

Está na hora da União Europeia romper com as amarras que  a submetem aos Estados Unidos e buscar as soluções para o futuro, em relações multilaterais que preservam e defender os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável promovidos pela ONU.

Manter a subserviência da Europa aos Estados Unidos é aprofundar a crisesocial, econômica e política que a Europa vive.

O tempo da Guerra Fria acabou.

Não é mais possível aos governos europeus atolarem os destinos do povo aos desígnios dos EUA.

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