Nossa elite é ganaciosa, mas covarde

Elite gananciosa e covarde

Nossa elite ganciosa e covarde quer levar vantagem em tudo. 

Mas não assume responsabilidades, não enfrenta perigos e não defende os mais vulneráveis.

Origem da nossa elite

Nossa elite nasceu do colonialismo atrelado a Portugal. O poder emanava da concessão de terras e propriedades, da expansão colonial pelo país e exploração de riquezas naturais: ouro, prata, pedra preciosas, madeira etc.

Nossa história nunca viveu um processo de ruptura que impulsionasse um sentimento de nação. A independência do Brasil foi um arranjo político de conveniência.

Durante séculos nossa elite foi baseada no escravismo. Primeiro da população originária e depois da importação negros sequestrados na África. Mais do que a exploração de uma força de trabalho, o comércio de escravos foi um negócio lucrativo e responsável pela acumulação de capital e consolidação do poder político.

 A abolição da escravidão não foi uma prestação de contas com o passado. Não houve reforma agrária ou integração da população negra à economia nacional com dignidade. Pelo contrário, Sem terra, sem escola, sem moradia digna e sem trabalho garantido, os ex-escravizados foram deixados à própria sorte.

A escravidão no Brasil

 A abolição da escravidão não foi uma prestação de contas com o passado. Não houve reforma agrária ou integração da população negra à economia nacional com dignidade. Pelo contrário, Sem terra, sem escola, sem moradia digna e sem trabalho garantido, os ex-escravizados foram deixados à própria sorte.

A elite, gananciosa e covarde, que havia sido  sustentáculo da escravidão, se omitiu de qualquer responsabilidade sobre o futuro daqueles que libertou.

Com o fim do tráfico e a abolição da escravidão, parte da riqueza acumulada financiou a transição para o trabalho assalariado e impulsionou as primeiras bases da industrialização urbana, especialmente no Sudeste.

A política de imigração europeia subsidiada foi deliberadamente incentivada para substituir a mão de obra escravizada, especialmente nas lavouras de café de São Paulo. O objetivo era claro: branquear a população e dificultar a ascensão dos negros.

Sem qualificação formal, despojados de direitos, inclusive da cidadania e sofrendo discriminação racial explícita, os ex-escravizados foram empurrados para os trabalhos mais precários, informais e mal remunerados

Muitos migraram para as cidades, onde se instalaram em morros e regiões periféricas, dando origem às primeiras favelas. A grande reforma urbana do Rio de Janeiro, em 1904, expulsou as populações pobres do centro, empurrando-as definitivamente para os morros

O patrimonialismo

O patrimonialismo no Brasil

A origem da confusão proposital entre o público e o privado, base do patrimonialismo, remonta dos tempos coloniais. Não existe uma divisão clara entre o Estado e a nossa elite econômica. Ela é o Estado.

Não existe o conceito de defesa dos interesses da comunidade. Existe a defesa dos interesses privados de quem detém o poder. Os cargos no aparelho estatal não são ocupados por mérito, capacidade técnica ou impessoalidade.

São ocupados com base na confiança pessoal, nos laços de sangue ou da proximidade de interesses.

O que vale é o toma lá dá cá.

patrimonialismo   tomaladacá

O sentimento nacional

Diferente do que se possa pensar, a elite industrial brasileira não se desenvolveu organicamente da evolução do patrimonialismo rural.

Ela nasceu impulsionada pela fusão de uma pequena parte da elite cafeeira representada pelos herdeiros do setor rural e de uma significativa parcela de imigrantes de classe média. O capital acumulado foi a origem da base industrial brasileira, 

Nossa indústria nunca conseguiu atingir a maturidade dos países desenvolvidos, utilizou em benefício próprio os incentivos do Estado e se submeteu às pressões do Capital Internacional, notadamente a partir de 1980 e da adoção das políticas Neo Liberais implantadas durante o governo Collor. Um elite que preferiu de maneira covarde a acomodação ao desenvolvimento de um sentimento nacional.

Nosso sentimento nacional foi forjado pelas elites no mito de mestiçagem e democracia racial.
Da coesistência pacífica entre os desiguais.

A cultura brasileira aprendeu a se identificar com o samba, o futebol e a “cordialidade”, mas não com instituições, direitos ou participação. Os conceitos não são excludentes, mas as imagens de cordialidade, amizade e camaradagem são usadas para esconder os preconceitos, as contradições e uma ação política e excludente.

Em sua obra “Cidade Partida“, Zuenir Ventura representa com rara clareza o profundo cinismo existente no mito da amizade da praia com a favela e a política excludente delega aos pobres, pretos e pardos o destinos das favelas, da periferia das cidades, da repressão sem limites das milícias e esquadrões da morte, das matanças como a Chacina de Vigário Geral, Candelária ou nos morros do Rio de Janeiro.

Não há nada de errado em uma identidade nacional que defenda seu patrimônio cultural, sua mentalidade “soft” e sua capacidade de resiliência e adaptação. 

Mas estes valores não podem esconder a profunda injustiça e desigualdade social existente no país.

Existem apenas duas classes sociais: a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem

Nossa elite é covarde

Nossa elite é covarde e submissa porque não se envolveu na construção de um projeto nacional autônomo e soberano.

Ao invés de liderar a formação de uma identidade nacional inclusiva e defender os interesses do país no cenário internacional, essa elite, com raras exceções, optou consistentemente por alianças com o capital internacional que garantissem a manutenção de seus privilégios internos.

Na identidade nacional foi um artifício das elites para consolidar seu poder e evitar rupturas sociais.

Suas características:

  • os privilégios e a estrutura escravocrata, evitando qualquer risco de revolta popular como ocorreu no Haiti. Não houve uma ruptura com a colonialidade, mas sim uma transição conservadora para preservar a ordem existente.

  • Identidade “Lírica” e Excludente: A identidade nacional que surgiu no século XIX foi um nacionalismo “lírico” e poético, exaltando a natureza e o indígena idealizado, mas ignorando a massa da população (escravizados, pobres livres, mestiços).

A Submissão ao Capital Internacional

A “submissão” ao capital internacional não foi um acidente, mas um padrão de comportamento da elite, que sempre soube alinhar seus interesses privados com o poder econômico global, mesmo que isso significasse manter o Brasil em posição subalterna.

  • Aliança com o Imperialismo: Desde a independência, a elite agrária manteve uma associação íntima de interesses com a burguesia europeia. Essa relação não era apenas de imitação, mas uma estratégia de defesa de seus privilégios, onde a dependência financeira e econômica era o preço para manter o poder interno.

  • Teoria da “Aliança Tríplice”: A industrialização brasileira a partir dos anos 1930 não foi um projeto autônomo, mas o resultado de uma “aliança tríplice” entre o Estado, o capital multinacional e o capital local. Essa aliança promoveu um desenvolvimento que beneficiava a elite parceira, mas excluía a maioria da população dos frutos do crescimento.

  • O Papel de “Comprador”: Salvo em raras exceções, as elites brasileiras, mesmo em setores avançados comportam-se como “compradores”, ou seja, subservientes aos interesses internacionais. Elas se adaptam e se acomodam ao capital estrangeiro para garantir sua própria dominância, em vez de criar um projeto nacional hegemônico.

  • Entreguismo Histórico: Florestan Fernandes analisou que a burguesia brasileira atingiu sua maturidade e poder sob a égide do capitalismo monopolista internacional, mantendo e agravando a dependência externa e a desigualdade social. Essa subordinação não é novidade e se manifesta, por exemplo, na postura de setores das Forças Armadas que, mesmo se dizendo nacionalistas, sempre se alinharam aos interesses dos EUA, como a doutrina da “geopolítica da Civilização Ocidental” durante a Ditadura.

Em suma, a elite brasileira priorizou seus privilégios de classe em detrimento da construção de uma nação verdadeiramente soberana e de uma identidade que integrasse seu povo. A aliança com o capital internacional foi o instrumento para manter essa ordem excludente, caracterizando uma postura que pode ser descrita, sem exagero, como covarde e submissa.

Independência, Liberdade e Soberania

É hora de construir nossa identidade nacional, tarefa que nossa elite gananciosa e covarde se recusou a realizar.

São será uma tarefa fácil. As pressões, boicotes e ameaças existirão no plano interno, alimentados pela extrema direita e a covardia do centrão, quanto do império americano decadente e cada vez mais ameaçador.

O país que queremos não será  resultado de uma “reforma” de um Congresso dominado pelas oligarquias e lobbies ou de um judiciário comprado pelo crime organizado.

A vontade de soberania precisará nascer da vontade de integrar à nossa cultura uma identidade nacional inclusiva e defender os interesses do país no cenário internacional

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