Qual é o programa que as elites brasileiras têm a oferecer para o país?
Explicitamente ele não existe. Mas nos bastidores todos conhecem: arrocho, cortes de benefícios, redução dos investimentos em saúde, educação, saneamento
As elites brasileiras e seus interesses
Na sua história, o Brasil é marcado por um sistema de governo totalmente baseado nos interesses das elites dominantes. Em cada ciclo econômico, da extração do Pau Brasil à industrialização, passando pelos ciclos agrícolas da Cana de Açúcar e Café, os interesses das elites estiveram sempre em primeiro lugar.
Nunca existiu um projeto de nação. Apenas interesses, privilégios e poder.
Durante todo este período, as elites exploraram a mão de obra barata, inclusive da escravidão dos negros sequestrados na África. Para a mão de obra trabalhadora, apenas o necessário para o seu sustento ou para o que fosse melhor para os negócios.
Os escravos foram libertados mas nunca aceitos como iguais. Foram relegados à condição de marginais, sem direitos, sem propriedades e sem condições mínimas de sobrevivência. Eles formam até hoje a parcela mais pobre e desassistida da nossa sociedade.
Não foi o mesmo que aconteceu com os imigrantes pós escravidão, que em muitos casos receberam terras, financiamento e foram tratados como um investimento para o futuro.
Em 525 anos, esta realidade não mudou significativamente
As manifestações populares e os avanços sociais
Os poucos avanços sociais conquistados em nossa história estão diretamente ligados aos movimentos populares contra a exploração das nossas elites dominantes.
Alguns desses movimentos:
Período Colonial e Imperial:
Movimentos nativistas, Inconfidência Mineira, Conjuração Baiana, Revolução Pernambucana → prepararam o terreno para a Independência
Movimento Abolicionista → Lei Áurea (1888)
Movimento Republicano → Proclamação da República (1889)
Primeira República (1889-1930):
Movimento Operário (greves de 1917-1919) → primeiras leis trabalhistas
Tenentismo → crítica às oligarquias, voto secreto
Era Vargas e Populismo (1930-1964):
Movimento Sufragista → voto feminino (1932)
Ligas Camponesas → reforma agrária como pauta nacional
Movimento Estudantil (UNE) → lutas por educação e democracia
Ditadura Militar (1964-1985):
Movimento pela Anistia → Lei da Anistia (1979)
Movimento Diretas Já → redemocratização (1985)
Movimento Sindical (Novo Sindicalismo) → greves do ABC, criação da CUT
Movimento Negro Unificado → denúncia do racismo, pautas na Constituinte
Nova República (1985-presente):
Movimento pela Reforma Sanitária → SUS (1988)
Movimento pela Reforma Urbana → Estatuto da Cidade (2001)
MST → políticas de reforma agrária
Movimento dos Caras Pintadas → impeachment de Collor (1992)
Movimento Feminista → Lei Maria da Penha (2006), Lei do Feminicídio (2015)
Movimento Negro → Lei de Cotas (2012)
Movimento LGBTQIA+ → casamento igualitário, criminalização da homofobia (2019)
Movimento VAT e Plebiscito Popular → PEC da Escala 6×1, isenção do IR (2025)
Resumindo, sem a ação consciente da população, o que veremos são as instituições trabalhando pelos interesses das elites, restando à maioria da população a miséria e uma vida indigna
As elites e o poder
Dominando as instituições, as elites se organizam em grupos de interesses e disputam entre si pelo controle do poder.
Mas todos têm num ponto em comum: manter fora das decisões qualquer representação popular.
O poder popular ameaça o jogo politico dos grupos porque coloca em questão quais os interesses que as instituições do Estado devem representar.
Preparando as eleições de 2026
Como preparativo para as eleições de 2026, a grande imprensa abre espaço para que os principais dirigentes partidários apresentem seus planos.
Nesta semana (9 a 15 de fevereiro de 2026), Gilberto Kassab e Valdemar da Costa Neto foram entrevistados. As conversas se restringiram a números, conquistas e influência nas diversas instâncias do estado.
Planos de país não foram abordados, porque no fundo não importam. As regras já estão estabelecidas.
Gilberto Kassab
Apresentou a estratégia de articular em seu partido 3 candidatos à presidência: Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. Seu objetivo: apresentar uma direita comportada e civilizada.
Deixou bem claro que caso seus candidatos não estejam no segundo turno, o apoio do partido será para Flávio Bolsonaro.
E afirmou que parte importante da estratégia será conquistar o máximo e cadeiras no Congresso e nos governos Estaduais
Valdemar da Costa Neto
Continua sendo o berço político do Bolsonarismo, quer harmonizar as divergências na família e trabalhará fortemente por Flávio Bolsonaro.
Diz que tem certeza de que Flávio irá para o segundo turno e terá o apoio dos candidatos do PSB, mas todos sabem que se Fábio não for para os segundo turno apoiará qualquer candidato contra o PT.
E da mesma forma que o PSD, centra sua estratégia em aumentar a bancada no Congresso e nos governos estaduais
Nas entrevistas de ambos, nenhuma linha sobre os programas de Estado. O objetivo é saber quanto poder vão conquistar ao final do processo, para negociar seus interesses.
Pautas populares? Nem pensar. Combate à corrupção, só para atacar o governo atual.
Afinal são estas mesmas elites que estão atoladas até o pescoço nos principais escândalos da atualidade.
O setor mais esclarecido da elite brasileira sabe que Bolsonaro já cumpriu o seu papel. Atacou frontalmente as conquistas sociais e criou um mecanismo de controle no congresso nacional capaz de paralisar qualquer presidente de oposição que for eleito, pelo poder das Emendas Parlamentares.
Mas eles também sabem que a família Bolsonaro conquistou um capital político que ainda não pode ser desconsiderado. Por isso, negociam para que ao final, não percam o controle.
A miríade de privilégios que existem nas instituições do Estado não é obra do acaso.
São os instrumentos que este grupo poderoso criou para poder controlar as instituições em todos os níveis: executivo, legislativo, judiciário e forças armadas.
Por esse motivo seus privilégios criam um contraste tão evidente com a maioria da população. A corrupção faz parte do jogo do poder.
E o Poder sempre flertou com o crime, em diversas instâncias. O que está assustando a todos é a profundidade que este relacionamento tem demonstrado.
Do Jogo do Bicho e o glamour das escolas de Samba ao comando do tráfico de drogas e armas com organizações como o Comando vermelho o PCC. As relações promíscuas das elites com o crime estão se tornando cada vez mais profundas.
O crime entendeu que para crescer, se expandir e conquistar poder, precisa estar presente nas instituições do Estado. E também estabelece suas metas de vereadores, deputados estaduais e federais, juízes eleitos. As vendas de sentenças judiciais, um serviço que no passado estava a serviço dos poderosos, hoje estão à disposição do tráfico de drogas e armas, extração e venda ilegal de ouro, regularizações fundiárias fraudulentas e outros crimes.
A lavagem de dinheiro, antes realizada por doleiros, agora utiliza um processo sofisticado, contando com instituições no setor financeiro, como revelou a investigação Carbono Oculto da Polícia Federal.
Esta é a dura realidade que as nossas elites pretendem preservar a todo custo.
O que as nossas elites têm a oferecer
O que resta à maioria do povo é morte, miséria e destruição. Não existem planos de nação, metas de desenvolvimento, defesa da nossa soberania e desenvolvimento da nossa capacidade criativa e cultural.
É a exploração mais bruta, que lembra muitas vezes os tempos da escravidão.
A riqueza do agro negócio contrasta com a escassez de alimentos, que só é garantida pela agricultura familiar, pelos assentamentos e e pelas pequenas propriedades.
Nossa soberania é negociada com sucessivos governos dos Estados Unidos, em troca de mais prestígio e poder.
Não existe o menor interesse em criar uma identidade nacional, um visão de pertencimento.
Em tempos de eleição, o que vemos são promessas que não vão ser cumpridas, valores que nunca foram praticados, ódio, mentiras e um movimento que só tem um objetivo: impedir que maioria da população brasileira tenha voz. O ódio tem seus alvos definidos: os pobres, os pretos, as minorias em todos os seus aspectos, as religiões.
Nossa elite quer vender para uma parcela da população a ilusão de uma superioridade, seja ela racial, ideológica, religiosa ou financeira.
Segundo Eles, os entregadores, os motoristas de Uber, os trabalhadores individuais são “empreendedores”, que por meritocracia e muita força de vontade um dia serão milionários. Com isso, atacam os benefícios trabalhistas e exploram a população ao seu limite.
Educação de qualidade que possa permitir a verdadeira permeabilidade social?
É inaceitável.
Aos pobres deve restar as escolas cívico militares, onde serão devidamente condicionados e colocados nos seus devidos lugares. Por esse motivo, governos neo liberais atacam a educação, reduzem verbas, tramam para acabar com o Pé de Meia e desviam as verbas destinadas às cotas para a população mais pobre.
Qual é o Brasil que queremos
Não existirá um projeto de Brasil soberano enquanto a vontade maioria da população Brasileira não conseguir vencer o poder que as elites brasileiras impuseram ao longo de séculos.
Serão muitos anos de trabalho consciente e sacrifícios, permitindo que a vontade popular se manifeste, como aconteceu nos momentos em que importantes conquistas sociais foram estabelecidas.
E por mais importantes que sejam as eleições de 2026, e elas serão, não serão um fim em si.
Por maiores que forem as bancadas engajadas com o futuro conquistadas, as instituições seculares e toda a sua máquina ainda estarão presentes, representando a vontade das elites.
Será um momento para que possamos unir aqueles que sonhamos um Programa de Justiça e Soberania para o Brasil.
É o momento para trabalhar o desenho sobre Qual o País que Queremos daqui a 20 anos.




