A triste história do Rio de Janeiro

Triste história do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro: De charmosa capital do Império a um Estado esvaziado economicamente, onde seus governadores são sistematicamente afastados e presos.

Esta é a triste história do Rio, que continua lindo, apesar da violência, da criminalidade e da corrupção.

Rio de Janeiro, como chegamos aqui

Como o Rio de Janeiro passou de capital do Império ao império do crime organizado. Esta é a história que vamos tentar entender neste artigo, para tentar vislumbrar as soluções para a crise profunda que o Estado vive à qual a população está submetida.

Rio de Janeiro, Capital Imperial

Rio no Império

A cidade do Rio de Janeiro durante o período imperial (1822-1889) viveu uma transformação radical, passando de uma agitada capital colonial a centro nervoso do Brasil independente e, posteriormente, à vitrine modernizadora que buscava se distanciar do passado escravocrata.

A cidade herdou a estrutura administrativa instalada por Dom João VI em 1808. O Paço Imperial,  hoje a Praça XV, era o centro do poder. A presença da família imperial (Dom Pedro I e depois Dom Pedro II) dava ao Rio um ar de corte europeia, com uma hierarquia rígida de nobreza, clero e funcionários públicos.

No seu apogeu, o Rio era o maior porto escravocrata das Américas. O Cais do Valongo, na zona portuária, era o ponto de desembarque de centenas de milhares de africanos. A cidade era uma mistura brutal de luxo europeu nos palacetes das chácaras e de multidões de escravizados que trabalhavam no transporte de mercadorias e no serviço doméstico.

A queda do Império e a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889 foi um processo de acúmulo de crises, resultando em um golpe civil-militar liderado por figuras que, ironicamente, muitas vezes não eram republicanas convictas. Longe de ser um movimento popular, a mudança foi articulada por elites descontentes e militares que se sentiam preteridos, após a vitória na Guerra do Paraguai. 

Rio de Janeiro, a capital da República

Rio de Janeiro capital da República

No período republicano como capital, o Rio de Janeiro foi o laboratório do Brasil moderno: ali se experimentaram reformas urbanas radicais, conviveram o luxo da zona sul e o crescimento das favelas, e se forjou a identidade cultural nacional através do samba, do carnaval e do futebol. 

Mesmo depois de perder o título de capital em 1960, a cidade herdou o legado de ter sido o coração político e simbólico da República durante mais de sete décadas.

No início da República, o Rio ainda era uma cidade colonial, com ruas estreitas, cortiços lotados e velhos casarões portugueses. O presidente Rodrigues Alves (1902-1906) e o prefeito Pereira Passos executaram uma reforma radical inspirada em Paris: abriram a Avenida Central (atual Rio Branco), arrasaram o Morro do Castelo, drenaram mangues e implantaram bondes elétricos. 

A Proclamação da República ocorreu sem participação popular. O famoso escritor Aristides Lobo descreveu que “o povo assistiu àquilo bestializado”, sem entender o que acontecia.

Milhares de famílias pobres, sobretudo negras e migrantes, foram expulsas dos cortiços do centro e empurradas para os morros e subúrbios – nascia ali a “favela” como fenômeno urbano e o Morro da Providência foi o primeiro caso.

Dando continuidade às características oriundas do Império, o Rio de Janeiro era a capital das elites e contrastava cada vez mais com a população pobre, descendente de escravos libertos, mas que não recebiam qualquer apoio para ascensão social, para quem restaram as favelas.

A era Vargas

A Era Vargas e o Rio de Janeiro

Getúlio Vargas personificou as
contradições do Brasil em sua transição de uma sociedade agrária e oligárquica para uma sociedade urbana e industrial.

Para as elites, foi tanto um concorrente a ser combatido quanto um parceiro a ser aceito, quando necessário, para a modernização econômica.

Para a política, foi um autoritário que, paradoxalmente, criou as bases da democracia moderna ao instituir o voto secreto e feminino.

Para o povo, foi um líder carismático que trouxe direitos fundamentais, mas dentro de um modelo de controle estatal que limitava a autonomia dos movimentos sociais.

Vargas procurou se alinhar "acima das classes", reorganizando suas alianças com os diversos setores da elite brasileira, particularmente a nascente elite industrial, ao mesmo tempo que aplicava uma política populista que o alçava ao papel de Pai do Povo.

Ele inaugurou uma relação ambígua com as favelas. Se, por um lado, o Estado Novo via as favelas como um "problema sanitário" a ser erradicado, por outro, houve uma mudança de percepção.

Reconhecimento: Pela primeira vez, o governo começou a mapear e reconhecer a existência das favelas.

Cultura: A cultura popular, nascida nesses espaços, foi apropriada pelo governo como símbolo de identidade nacional. O samba, que brotava nas quadras da Estácio de Sá e nos terreiros da Pequena África (região portuária), ganhou status e espaço.

A mudança da Capital para Brasília

Brasília, capital federal

A mudança da capital do Rio de Janeiro para Brasília, em 1960, desencadeou um processo profundo e duradouro de transformações na cidade e no estado. A transferência gerou impactos que vão desde um rápido esvaziamento político e institucional até uma crise estrutural que se arrasta por décadas, agravada por uma fusão estadual imposta posteriormente.
Este é um resumo dos principais impactos, divididos entre os imediatos e os de longo prazo.
Imediato (1960): Perda do status de capital, criação do Estado da Guanabara, esvaziamento da máquina pública federal, debates sobre o futuro econômico da cidade

Longo Prazo: Enfraquecimento político e institucional, crise fiscal estrutural, aumento da desigualdade social, problemas de segurança pública, desenvolvimento de um padrão político clientelista.

O esvaziamento administrativo e a consequente crise econômica contribuíram para o aumento da desigualdade social. Problemas como a favelização descontrolada e a insegurança pública começaram a se agravar a partir da década de 1980, tornando-se marcas negativas da região. 
Um dos capítulos mais decisivos e traumáticos foi a fusão forçada do estado da Guanabara com o estado do Rio de Janeiro em 1975, durante a ditadura militar .

A medida, feita sem consulta popular, visava centralizar o poder e diluir focos de oposição, mas resultou na união de duas realidades distintas e com economias desequilibradas. Muitos especialistas apontam que essa fusão, em vez de integrar, aprofundou as desigualdades e os desafios administrativos

O governo de Carlos Lacerda

Carlos Lacerda

O Estado da Guanabara foi criado em 1960, após a mudança da capital federal para Brasília . Carlos Lacerda, da União Democrática Nacional (UDN), venceu a eleição para governador com 37% dos votos, em uma disputa acirrada contra Sérgio Magalhães (PTB) e Tenório Cavalcanti (PST) .

Sua posse, em dezembro de 1960, foi marcada por um discurso veementemente anticomunista e um tom de "guerra contra a corrupção".

A política habitacional de Lacerda é um dos aspectos mais polêmicos e controversos de seu governo. Para "revitalizar" a cidade e valorizar áreas nobres, como a Lagoa Rodrigo de Freitas, seu governo implementou um programa sistemático de remoção de favelas .

Pontos marcantes do governo Lacerda:

Remoções em massa: Estima-se que cerca de 140 mil pessoas foram removidas de suas comunidades durante seu governo.

Conjuntos habitacionais: Muitos dos removidos foram realocados para conjuntos habitacionais distantes da zona sul, como Cidade de Deus e a Vila Kennedy, construída com recursos do programa americano "Aliança para o Progresso", que financiava projetos sociais para conter a influência comunista na América Latina.

Críticas de violência: Críticos acusam o governo de usar uma "política de higienização social", com episódios de violência policial contra a população de rua, como o que ficou conhecido como "Operação Mata-Mendigos" (1962-1963).

Lacerda foi uma peça-chave na crise política que levou ao golpe militar de 1964. Inimigo histórico do presidente João Goulart (Jango), ele atuou ativamente para desestabilizar o governo e foi uma das principais lideranças civis que apoiaram a deposição do presidente .

Apoio inicial ao golpe: Acreditava que, com a deposição de Jango, abriria-se caminho para que ele próprio fosse eleito presidente da República em 1965.

Ruptura com a ditadura: No entanto, com a instauração do regime militar e o cancelamento das eleições diretas para presidente, seus planos foram frustrados. Passou a fazer oposição aos governos militares, especialmente ao de Castello Branco, o que o levou a ter seus direitos políticos cassados em 1968

Rio de Janeiro, Guanabara e a fusão

Fusão do Rio de Janeiro
Antônio Seixas, no Grupo História Fluminense

Em 15 de março de 1975, ocorreu a fusão do Estado do Rio de Janeiro com o Estado da Guanabara, imposta pela Ditadura Militar, dando origem ao atual Estado do Rio de Janeiro. A fusão se concretizou com a posse do Governador Floriano Peixoto Faria Lima, escolhido pelos militares. 

A fotografia é a da posse do Governador Faria Lima, acompanhado de Raymundo Padilha, último governador do Estado do Rio, de Chagas Freitas, último governador do Estado da Guanabara, e de Armando Falcão, Ministro da Justiça. 

Esta unificação forçada e artificial, sem qualquer tipo e preparação e planejamento, gerou profundas contradições, em regiões que possuíam dinâmicas completamente diferentes. As principais consequências foram a perda global de poder político e econômico e fortaleceu um modelo de política conhecido como “chaguismo”, em referência ao governador Chagas Freitas.

Esse modelo é marcado pelo clientelismo, empreguismo e uso da máquina pública para construir alianças políticas, uma prática que, em formas adaptadas, ainda persiste na política fluminense.

Impactos econômicos e desafios estruturais

  • Desequilíbrio fiscal e dívida: A Guanabara possuía uma arrecadação muito superior (três vezes mais) e uma administração mais eficiente do que o antigo estado do Rio, que era mais pobre e rural. A unificação forçada criou um desequilíbrio, e a falta de um plano de transição ou de compensações financeiras por parte do governo federal é apontada por governadores como a origem das profundas crises fiscais que o estado enfrenta até hoje .

  • Criação da Região Metropolitana: A fusão levou à criação oficial da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, reconhecendo a integração física e econômica que já existia na prática. No entanto, a gestão integrada de serviços como transporte, saneamento e lixo continua sendo um dos maiores desafios .

  • Desigualdade regional e desafios de integração: Apesar da união administrativa, persiste uma divisão entre a capital e o interior. A Região Metropolitana concentra a maior parte dos investimentos, enquanto o interior do estado enfrenta dificuldades para se desenvolver de forma equilibrada. A integração real, que supere dicotomias históricas, ainda é uma agenda inacabada.

Consequências que persistem até hoje

Meio século depois, a fusão é frequentemente associada a problemas estruturais do estado. Entre os principais legados negativos apontados estão:

  • Insegurança pública: A violência e a crise na segurança pública são frequentemente citadas como um dos problemas centrais e não resolvidos.

  • Crise institucional: A sucessão de governadores afastados por corrupção ou impeachment nos últimos anos é vista por alguns como um sintoma da fragilidade institucional que teria raízes no modelo político consolidado após a fusão.

  • Ressentimento e relação conturbada com a União: Governadores de diferentes épocas são unânimes em criticar a falta de compensação do governo federal pela perda do status de capital e pela fusão, um ressentimento que alimentou uma relação frequentemente tensa entre o estado e o Planalto.

Em resumo, a fusão de 1975 foi um ato imposto pela ditadura que, embora tenha tornado o estado mais robusto em termos territoriais e criado uma região metropolitana, também concentrou poder, aprofundou um modelo político clientelista e gerou um desequilíbrio fiscal que, aliado à falta de compensações federais, resultou em décadas de desafios econômicos, administrativos e de segurança pública.

Como consequência, a economia do Rio de Janeiro passou a sofrer um gradativo esvaziamento. Os setores bancário e de seguros, grandes empregadores no estado, aos poucos foram migrando para São Paulo, que se transformou no pólo financeiro do Brasil. 

A Bolsa de Valores do Rio de Janeiro fechou suas portas em  2002, após um longo processo de esvaziamento iniciado com a crise de 1989.

O "Milagre" do Petróleo e a Dependência Estrutural

Bacia de Campos   Rio de Janeiro

A partir da década de 1990, com a descoberta de grandes reservas de petróleo na Bacia de Campos e, mais tarde, no pré-sal, o Rio de Janeiro experimentou um boom de arrecadação, principalmente através dos royalties.

  • Uma Riqueza Ilusória: As receitas do petróleo se tornaram o principal pilar do orçamento estadual. Isso criou uma ilusão de prosperidade, mas também uma dependência perigosa. O estado deixou de diversificar sua economia e modernizar sua indústria, apostando todas as fichas em um recurso finito e volátil.

  • Crescimento Desordenado: A abundância de recursos no início dos anos 2000 permitiu investimentos em grandes obras (como o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – COMPERJ), mas também serviu para inflar a máquina pública e financiar políticas de subsídios sem um planejamento de longo prazo.

O ponto de virada para o colapso financeiro foi uma operação de engenharia financeira realizada pelo então governador Sérgio Cabral e seu vice, Luiz Fernando Pezão.

  • A Operação “Rio Oil Finance Trust” (2014): Para financiar os megaeventos (Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016) e manter um ciclo de gastos elevados, o governo estadual realizou uma operação que adiantou receitas futuras de royalties do petróleo até o ano de 2026 .

  • A Armadilha: A aposta era que os preços do petróleo se manteriam altos e a produção continuaria crescendo. No entanto, entre 2015 e 2018, houve uma forte queda no preço do barril no mercado internacional.

  • O Colapso: Com a receita real muito abaixo do projetado e com os compromissos de pagamento da dívida antecipada já contratados, o estado entrou em uma crise fiscal aguda. Salários de servidores atrasaram, aposentadorias ficaram sem pagamento e a máquina pública entrou em colapso.

Uma história de governadores ficha suja

Governadores ficha suja

Nos últimos 30 anos, sete governadores tiveram problemas sérios de governabilidade.

Este recorde histórico criou a lenda da “maldição do Palácio Guanabara”.

Desde esquemas de corrupção na saúde até fraudes eleitorais, os motivos variam, mas o destino foi igual para todos os governadores do Rio de Janeiro.

Ficam de fora desta história horripilante, apenas os Governadores: Leonel Brizola, Marcello Alencar e Benedita da Silva.

Wellington Moreira Franco

Wellington Moreira Franco

  • Razão da Prisão: Foi preso em março de 2019 pela Operação Lava Jato.

  • Acusação: Suspeita de participação em um esquema de fraudes milionárias na Caixa Econômica Federal, onde atuou como vice-presidente. Ele foi acusado de corrupção, peculato e lavagem de dinheiro relacionados a contratos da Eletronuclear para a construção da usina de Angra 3 .

  • Desfecho: Ficou preso por apenas quatro dias. Em 2022, as acusações contra ele foram anuladas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, e o processo foi arquivado por falta de provas

Antony Garotinho

Antony Garotinho

  • Razão da Prisão: Foi preso em cinco ocasiões diferentes entre 2016 e 2017.

  • Acusação: Os principais motivos foram corrupção eleitoral, associação criminosa e coação de testemunhas. Ele foi condenado pelo TSE por um esquema de compra de votos em Campos dos Goytacazes (Operação Chequinho), onde teria distribuído cheques a eleitores em troca de votos para sua esposa, Rosinha Garotinho .

  • Desfecho: Teve os direitos políticos suspensos e foi declarado inelegível. 

    As prisões preventivas foram revogadas após alguns dias por decisões de instâncias superiores

Rosinha Garotinho

Rosinha Garotinho

  • Razão da Prisão: Foi presa em novembro de 2017 na Operação Caixa d’Água.

  • Acusação: Integrar uma organização criminosa que arrecadava recursos ilícitos com empresários para financiar campanhas eleitorais. A investigação apontou que o grupo utilizava até mesmo extorsão para obter dinheiro .

  • Desfecho: Assim como o marido, foi liberada poucos dias após a prisão por decisões de tribunais superiores. 

    Em 2019, foi condenada por improbidade administrativa .

Sérgio Cabral

Sergio Cabral

  • Razão da Prisão: Preso em novembro de 2016 na Operação Lava Jato (fase Calicute), é considerado o símbolo máximo da corrupção no estado.

  • Acusação: Foi apontado como o chefe de uma organização criminosa que cobrava cerca de 5% de propina sobre contratos bilionários de obras públicas (como a reforma do Maracanã e o PAC das favelas), além de contratos na saúde e educação. As investigações revelaram contas no exterior, joias e um esquema que movimentou centenas de milhões de reais .

  • Condenação: Ele acumula condenações em 23 processos, com penas somadas que ultrapassam 430 anos de prisão .

  • Desfecho: Após seis anos preso, foi solto em dezembro de 2022 para cumprir prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica

Pezão

Luiz Fernando Pezão

  • Razão da Prisão: Foi preso em novembro de 2018, ainda no exercício do mandato, pela Operação Boca de Lobo (desdobramento da Lava Jato).

  • Acusação: Foi denunciado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Segundo delatores, ele recebeu uma “mesada” de R$ 150 mil do esquema comandado por seu antecessor, Sérgio Cabral, quando era vice-governador .

  • Desfecho: Ficou um ano preso. Em 2023, foi absolvido pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) por falta de provas consistentes

Wilson Witzel

Wilson Witzel

  • Razão: Embora não tenha sido preso, sofreu o primeiro impeachment da história do Rio de Janeiro em 2021.

  • Acusação: Foi afastado do cargo sob suspeita de irregularidades e corrupção na compra de equipamentos e celebração de contratos na área da saúde durante a pandemia de Covid-19 (Operação Placebo) .

  • Desfecho: Teve os direitos políticos suspensos por cinco anos. Atualmente, ele é pré-candidato novamente ao governo do estado

Claudio Castro

Claudio Castro

  • Razão: O ex-governador renunciou ao cargo em março de 2026, na véspera do julgamento, mas foi condenado e tornado inelegível por 8 anos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) .

  • Acusação: Foi considerado culpado por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. Segundo as investigações, ele utilizou a Fundação Ceperj e a Uerj para contratar cerca de 27 mil funcionários fantasmas (as chamadas “folhas de pagamento secretas”) que atuaram como cabos eleitorais, com salários pagos “na boca do caixa”

Esta folha corrida de 30 anos mostra ao que foi reduzido o Rio de Janeiro: nenhuma política de Estado, nenhuma diretriz econômica, nenhum programa social e tráfico de interesses que desconsideraram completamente as necessidades da população.

Um Estado economicamente falido, sem nenhum atrativo para investimento, que acaba entregue de mão beijada ao crime organizado, representado pelo tráfico de drogas e pelas milícias, que exploram a população pobre e os pequenos comerciantes de todas as maneiras possíveis.

Os condomínios de luxo se transformaram no quartel general da bandidagem e do saque generalizado ao Estado.

O Crime Organizado no Rio de Janeiro

O Crime Organizado RJ
Fonte: Organização Fogo Cruzado

A história do crime organizado no Rio de Janeiro é a história de uma relação perversa e indissociável com o Estado. 

Longe de serem entidades externas, tanto as facções de tráfico quanto as milícias emergiram, se estruturaram e se consolidaram a partir de interações complexas e, muitas vezes, de conluio direto com agentes e instituições do Estado.

O Tráfico: Uma Estrutura Empresarial do Crime

As facções de tráfico no Rio de Janeiro se profissionalizaram, adotando uma estrutura hierárquica e descentralizada que se assemelha a uma empresa criminosa.

  • Origem no Sistema Prisional: A mais antiga e poderosa facção, o Comando Vermelho (CV), surgiu no final da década de 1970, no presídio da Ilha Grande. O grupo nasceu da convivência entre presos comuns e presos políticos da ditadura militar, que ensinaram aos primeiros táticas de disciplina e organização coletiva. Inicialmente, tratava-se de um movimento de resistência por direitos básicos dentro do cárcere, mas com o tempo, se transformou na primeira grande facção criminosa do Brasil.

  • Uma Hierarquia de Sete Níveis: Investigações recentes do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) revelaram uma hierarquia formalizada e rígida dentro do CV, composta por 7 níveis de comando. Essa estrutura permite à facção operar com eficiência, garantindo sua continuidade mesmo após a prisão de seus líderes.

    • Cúpula (Níveis 1-3): No topo estão os “Chefes de Guerra”, responsáveis pelas estratégias gerais, finanças e invasões de territórios. Abaixo deles, os “Gerentes de Área” coordenam o tráfico em comunidades específicas, e os “Seguranças” protegem as lideranças.

    • Base (Níveis 4-7): Executam as operações do dia a dia. Incluem “Soldados” (defesa armada), “Vapores” (venda de drogas), “Radinhos” (comunicações) e “Olheiros” (vigilância).

  • Principais Facções e Seus Territórios: Além do CV, outras facções como o Terceiro Comando (TC) e os Amigos dos Amigos (ADA) também disputam o controle de territórios na cidade e região metropolitana. Um mapeamento de 2022 mostrou que o CV detinha hegemonia sobre 24,2% dos bairros do Rio, enquanto o TC e ADA controlavam 8,1% e 1,9%, respectivamente. As disputas entre essas facções são uma das principais causas da violência armada na cidade

As Milícias: O Estado Paralelo que Nasceu Dentro do Estado

As milícias representam um fenômeno distinto, caracterizado por sua origem e composição diretamente ligadas às forças de segurança do Estado.

  • Das Décadas de 1950 aos Dias Atuais: A origem das milícias remonta às décadas de 1950 e 1960, quando grupos de extermínio formados por policiais começaram a atuar nas periferias do Rio, que eram negligenciadas pelo poder público. Inicialmente, eram vistos como uma resposta “necessária” ao caos, mas logo passaram a cobrar taxas de “proteção” e a controlar ilegalmente serviços essenciais como gás, transporte e TV a cabo.

  • Estrutura e Atuação: As milícias são compostas majoritariamente por agentes ou ex-agentes do Estado, como policiais civis, militares, bombeiros e agentes penitenciários, que utilizam seu conhecimento e trânsito institucional para operar. Sua atuação é territorial, impondo um “governo paralelo” e controlando a vida dos moradores.

  • Crescimento Acelerado e Expansão: A CPI das Milícias, em 2008, revelou que as milícias já dominavam vastas áreas do estado. Desde então, seu poder só aumentou. Dados de 2022 mostram que as milícias controlam uma extensão territorial maior que a de todas as facções de tráfico juntas, dominando 57,5% do território da cidade do Rio de Janeiro.

A Relação Perversa com as Instituições do Estado

O elo mais sombrio dessa história é a relação simbiótica e corrupta que essas organizações estabelecem com o próprio Estado que deveriam combater.

  • A CPI das Milícias (2008): Foi um marco ao expor a profundidade da infiltração do crime na política e nas instituições. O relatório final pediu o indiciamento de 266 pessoas, incluindo 7 políticos, além de dezenas de policiais, bombeiros e agentes penitenciários, por sua ligação com grupos paramilitares. A CPI comprovou que as milícias contavam com a participação ativa de agentes do Estado.

  • Corrupção Sistêmica na Segurança Pública: A relação de agentes de segurança com o crime não se restringe às milícias. Operações recentes, como a Operação Anomalia da Polícia Federal em março de 2026, revelaram como policiais militares utilizavam suas funções para facilitar a logística do tráfico e das milícias, blindar seus integrantes e ocultar os lucros do crime. Em alguns casos, a investigação apontou agentes que extorquiam traficantes dentro de delegacias, utilizando a própria estrutura do Estado para cometer crimes

O crime organizado e a política no Rio de Janeiro

Claudio Castro
TH Joias e Rodrigo Bacellar
Rodrigo Bacellar e Bolsonaro
Flavio Bolsonaro e Chiquinho Brazão

A relação entre o crime organizado e a política no Rio de Janeiro evoluiu de uma lógica inicial de cooptação e financiamento eleitoral para uma infiltração ativa e sistêmica nas instituições do Estado. Essa transformação permitiu que facções criminosas deixassem de ser meros atores marginalizados para se tornarem agentes influentes nos processos políticos e na gestão pública.

As Fases da Infiltração Política

A ascensão do crime organizado como ator político no Rio de Janeiro não foi um evento único, mas um processo evolutivo com fases distintas:

  • Fase 1: Cooptação e Financiamento (Décadas de 1980-2000): O primeiro vínculo entre o crime e a política se deu através do financiamento ilegal de campanhas, onde o tráfico de drogas e as nascentes milícias forneciam recursos e apoio logístico a políticos corruptos em troca de favores, como a omissão de investigações ou informações privilegiadas. Nessa época, a atuação do crime no campo político era mais difusa e reativa.

  • Fase 2: Domínio Territorial e Currais Eleitorais (Década de 2000-2020): Com o fortalecimento territorial de milícias e facções, surgiu o controle direto sobre o processo eleitoral. O crime organizado passou a ditar quem pode ou não fazer campanha em seus domínios, cobrando taxas que podiam chegar a R$ 200 mil pelo “aluguel” do território como palanque eleitoral. Esse poder de “cabo eleitoral” armado permitiu eleger e manter no poder uma nova geração de políticos comprometidos com seus interesses.

  • Fase 3: Infiltração Institucional (2020-presente): A fase mais recente é marcada pela tentativa de controle do Estado “por dentro”. O crime passou a lançar seus próprios quadros ou cooptar agentes públicos diretamente, visando cargos no legislativo e no executivo para desviar recursos, obter informações sigilosas e direcionar políticas públicas em seu benefício.

Mecanismos de Controle e Poder

Essas fases se materializam através de mecanismos práticos que garantem a influência do crime na política:

  • Currais Eleitorais e Coação do Voto: Em áreas dominadas, o processo eleitoral é completamente distorcido. Um mapeamento de 2018 já identificava cerca de 300 comunidades utilizadas como currais eleitorais, onde o acesso de candidatos e a liberdade de voto são controlados pelos criminosos. A população é coagida e monitorada para votar nos candidatos apoiados, sob pena de represálias violentas.

  • O Poder por Procuração: a “Milícia Eleitoral”: Com o domínio territorial consolidado, os chefes do crime se tornam os “cabos eleitorais” mais influentes do estado. Eles endossam candidatos e, em troca, esperam receber benesses quando estes chegam ao poder, criando um ciclo perverso de proteção e impunidade.

  • Infiltração Direta e Captura de Instituições: O passo seguinte é a ocupação de cargos públicos por membros ou aliados do crime organizado. O caso mais emblemático é a prisão do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar, acusado de usar seu alto cargo para beneficiar o Comando Vermelho (CV) com informações sigilosas e obstruir investigações. Isso demonstra uma escalada sem precedentes na captura de uma das mais altas instituições do estado.

Exemplos Recentes

As fases e mecanismos descritos tornam-se evidentes em eventos e investigações concretas:

  • O Caso da “Milicia Eleitoral” em Rio das Pedras: A favela de Rio das Pedras, na Zona Oeste, é um exemplo clássico. Ali, as milícias há muito controlam o território e a política local, determinando quais candidatos podem fazer campanha e elegendo seus representantes para a Câmara de Vereadores e para a Alerj, garantindo assim a continuidade de seu domínio.

  • A Operação Unha e Carne e a Prisão de Rodrigo Bacellar: A Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal, revelou uma sofisticada rede de corrupção e obstrução dentro da Alerj. A prisão de Rodrigo Bacellar, na época uma das maiores autoridades do estado, expôs como o Comando Vermelho havia conseguido infiltrar-se no topo do poder legislativo fluminense.

  • A Expansão do Comando Vermelho: Segundo o Mapa dos Grupos Armados de 2025, o Comando Vermelho (CV) consolidou-se como o grupo criminoso que controla o maior contingente populacional do Rio de Janeiro, com 1,6 milhão de moradores sob seu domínio direto. A ampliação desse controle territorial e populacional se reflete diretamente em sua capacidade de influenciar eleições e pressionar o poder público.

O Crime Organizado e a lavagem de dinheiro

4TBank

A lavagem de dinheiro no Rio de Janeiro deixou de ser uma atividade secundária para se tornar o motor central do crime organizado. Acompanhando a evolução da própria criminalidade, ela passou por transformações que a tornaram cada vez mais sofisticada e enraizada na economia formal, exigindo respostas do Estado igualmente complexas.

A Evolução por Fases: Das Malas de Dinheiro às Fintechs

A evolução da lavagem de dinheiro pode ser dividida em três fases principais:

  • 1ª Fase: Estruturas Primitivas (Até meados dos anos 2000). Inicialmente, o método era simples: o dinheiro do tráfico era transportado em espécie, escondido em veículos ou malas, e depositado em contas correntes por meio de “laranjas”. O uso de empresas de fachada e setores como o de transportes já era comum para tentar ocultar a origem dos recursos.

  • 2ª Fase: Infiltração Econômica (Dos anos 2010 em diante). O crime organizado percebeu que a lavagem de dinheiro não precisava ser apenas uma despesa para ocultar o lucro do tráfico. Tornou-se um negócio próprio, tão ou mais lucrativo. As facções passaram a dominar setores inteiros da economia informal (e formal) dentro dos territórios que controlam, como transporte alternativo (vans), distribuição de gás de cozinha e internet, extraindo recursos diretamente da população e das empresas.

  • 3ª Fase: Modernização e Alianças (Atual). Esta é a fase mais recente e perigosa, onde as organizações criminosas se aliam e passam a usar instrumentos financeiros complexos. A criação de bancos digitais próprios, como o 4TBank pelo CV/PCC, e o uso de criptomoedas, fintechs e fundos de investimento tornaram o rastreamento do dinheiro muito mais difícil. Essa fase também é marcada por megaalianças, como a parceria estratégica entre o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) para estruturar esquemas bilionários e compartilhar rotas logísticas.

Os Setores da Economia Dominados pelo Crime

Para dar vazão ao dinheiro ilícito e gerar ainda mais lucro, o crime organizado se infiltrou em uma vasta gama de setores da economia formal e informal. As investigações apontam mais de uma dezena de áreas exploradas, incluindo:

  • Setores tradicionais: Postos de gasolina, comércio de veículos, mercado imobiliário, construção civil, transportes (especialmente ônibus), mineração e comércio de ouro, bebidas e cigarros.

  • Setores de serviços: Empresas de segurança, coleta de lixo, serviços de saúde (OS), igrejas e até mesmo empresas de futebol.

  • Setores financeiros modernos: Bancos digitais, fintechs, casas de câmbio, fundos de investimento e plataformas de criptomoedas.

Essa diversificação tornou as facções extremamente poderosas. Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostrou que, só em 2022, os criminosos movimentaram R$ 146,8 bilhões nesses setores, um valor quase dez vezes maior que os R$ 15 bilhões estimados para o tráfico de cocaína no mesmo período.

Casos Notórios que Expõem o Esquema

  • A Operação Contenção e a Aliança CV-PCC: Em abril de 2025, a maior investigação da história da Polícia Civil do Rio revelou um esquema que movimentou R$ 6 bilhões em apenas um ano para o CV e o PCC. A operação expôs uma aliança estratégica entre as duas maiores facções do país e desarticulou uma rede de 22 empresas de fachada, fintechs e até um banco digital próprio que servia como principal lavanderia do grupo.

  • A Prisão de Rodrigo Bacellar e a CPI do Crime Organizado: A prisão do então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, acusado de usar seu cargo para beneficiar o CV, foi um marco. Esse evento, somado a outras investigações, culminou na instalação da CPI do Crime Organizado no Senado, que em 2026 investiga a fundo a infiltração do crime na política e na economia, inclusive o controverso “Caso Master

O futuro do Rio de Janeiro e o combate ao crime organizado

O futuro do Rio de janeiro passa inevitavelmente pela reorganização da estrutura social do Estado, o afastamento de todo o sistema de governo baseado na corrupção e o desmantelamento completo do comando das Organizações Criminosas. livrando a população da exploração e da opressão.

Certamente, a estratégia de recuperação do Rio de Janeiro não passa pela matança em massa de pretos e pobres nas favelas, nem no “apartheid” social. 

Pelo contrário, será necessário um amplo movimento social para a definição de um Plano de Estado que represente os interesses e e necessidades da sociedade no Estado e de representantes públicos comprometidos com a implementação deste Plano e Governo.

Justiça social é a base indispensável de este programa, que deve implementar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável adaptados à realidade do Estado.

Qual é o Rio e Janeiro que queremos para daqui a 20 anos?

É sobre este plano que toda população do Rio deve ser chamada a participar ativamente.

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Este artigo foi produzido com pesquisas direcionadas, utilizando o DeepSeek e o ChatGPT

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