Trump reedita a Doutrina Monroe, criada em 1823
Como sempre, ele tenta voltar no tempo glorioso da formação do Estado Americano
Sua expectativa é reverter a decadência do império americano, estabelecendo à força a sua influência na América Latina
Mas o poder dos Estados Unidos não é mais o mesmo de 40 anos atrás
O que é a Doutrina Monroe
A frase resumia a Doutrina Monroe era: “América para os americanos”.
Em 1823, isso significava impedir que os países europeus mantivessem o poder sobre suas colônias na América, que pudessem colocar em risco a independência dos Estados Unidos.
O seu pensamento consistia em três pontos:
- a não criação de novas colônias na América;
- a não intervenção nos assuntos internos dos países americanos;
- a não intervenção dos Estados Unidos em conflitos relacionados aos países europeus como guerras entre estes países e suas colônias.
Julgarmos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência europeia.....
Presidente James Monroe ao Congresso dos EUA, 1823
O novo sentido da Doutrina Moore
“A partir do final do século XIX, os Estados Unidos deram um caráter imperialista à doutrina Monroe e começaram a fortalecer sua influência militar, econômica e política na região do Caribe, inclusive através de intervenções militares. O objectivo é transformar este mar das Caraíbas num mare nostrum devido à sua importância estratégica.
Entre 1891 e 1912, realizaram uma série de intervenções militares: 1891, Haiti; 1895, Nicarágua; 1898, Porto Rico e Cuba; 1899, Nicarágua; 1902, Venezuela; 1903, República Dominicana e Colômbia; 1904, República Dominicana e Guatemala; 1906-1903, Cuba; 1907, República Dominicana; 1909-1910, Nicarágua; 1910-1911 Honduras; 1912, Cuba, Nicarágua e República Dominicana (fora do Caribe, a ação militar é tomada contra o Chile em 1891).
Ao praticar a “diplomacia do dólar”, realizam intervenções financeiras que conduzem ao estabelecimento de controlos americanos sobre as finanças de vários Estados (Honduras, Nicarágua, República Dominicana, Haiti). Eles adquiriram territórios como Porto Rico depois da guerra contra a Espanha em 1898, e as Ilhas Virgens, compradas da Dinamarca em 1917. Alguns Estados são colocados sob um status próximo ao protetorado, como Cuba, em virtude da emenda Platt e da aquisição da base naval de Guantánamo, e Panamá, em virtude da Constituição panamenha (elaborada com a participação do cônsul americano) e do destacamento permanente de forças americanas na área do canal.”
Fonte: Wikipedia
Em resumo, a Doutrina Monroe se transformou numa estratégia para tornar a América Latina um quintal dos Estados Unidos.
Como aponta o texto da Wikipedia, desde o final do século 19, os Estados Unidos intervieram em países latino americanos para garantir seus interesses.
A crise na Venezuela e o Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe
A Venezuela viveu um crise de inadimplência que resultou em um bloqueio naval, que durou de dezembro de 1902 a fevereiro de 1903, imposto pela Grã-Bretanha, Alemanha e Itália contra a Venezuela, como resultado da recusa do presidente da Venezuela, Cipriano Castro em pagar as dívidas externas e os prejuízos sofridos pelos cidadãos europeus em uma guerra civil recente no país.
Fonte: Wikipedia
Pontos-chave:
- Contexto: Surgiu após a crise venezuelana (1902-1903), temendo a intervenção de potências europeias para cobrar dívidas.
- Conteúdo: Os EUA interviriam em “casos flagrantes de má conduta ou impotência” para manter a estabilidade, agindo como árbitros ou cobradores.
- Justificativa: Prevenir a agressão estrangeira e manter a Doutrina Monroe, que visava a não interferência europeia nas Américas, mas sob a ótica americana.
- Prática (Big Stick): Justificou o imperialismo e intervenções militares dos EUA no Caribe e América Central (Cuba, Nicarágua, Haiti, Rep. Dominicana), associando dominação econômica à força.
- Legado: Foi a base para uma política intervencionista que só seria relaxada com a “Política da Boa Vizinhança” de Franklin D. Roosevelt, décadas depois.
Comunismo, Terrorismo ou Narco Terrorismo?
Durante a Guerra Fria, a política americana na América Latina focou em conter o comunismo, apoiando ditaduras militares “anticomunistas” (como no Brasil, Chile, Argentina), intervindo militarmente ou via CIA em países como Guatemala, Cuba (Baía dos Porcos) e República Dominicana, e financiando grupos anticomunistas para desestabilizar governos de esquerda, resultando em apoio a golpes e regimes repressivos para manter a hegemonia dos EUA na região, conforme a Doutrina Monroe.
Com a queda do Muros e Berlim em 1989 e dissolução da União Soviética, os Estados Unidos reinaram soberanos cenário político mundial.
Mas este período marcou também o declínio da economia americana, abalada por pelo menos 3 crises importantes:
- Período: Julho de 1990 a Março de 1991 (8 meses).
- Causas: Aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve para conter a inflação, o que, combinado com a crise de poupança e empréstimos e o choque do preço do petróleo após a invasão do Kuwait pelo Iraque, levou a um declínio do PIB e aumento do desemprego.
- Impacto: Foi uma recessão relativamente branda em comparação com contrações anteriores, mas o mercado de trabalho demorou a recuperar.
- Período: Março de 2001 a Novembro de 2001 (8 meses).
- Causas: O estouro da “bolha das pontocom”, um período de especulação excessiva em ações de empresas de tecnologia na virada do milênio, resultou em uma queda acentuada do mercado de ações. A crise foi agravada pelos ataques de 11 de setembro.
- Impacto: O índice NASDAQ despencou, e a economia sofreu com a redução dos gastos de capital das empresas em tecnologia.
- Período: Dezembro de 2007 a Junho de 2009 (18 meses).
- Causas: Considerada a pior crise financeira desde a Grande Depressão. Originou-se no mercado imobiliário dos EUA, devido à concessão generalizada de hipotecas de alto risco (subprime) e à falha na regulamentação dos instrumentos financeiros complexos (como mortgage-backed securities).
- Impacto: Levou à falência de grandes instituições financeiras (notavelmente o Lehman Brothers), à queda dos preços das casas, perda massiva de riqueza das famílias e um pico de desemprego que atingiu 10%. O governo interveio com um pacote de resgate financeiro e estímulos fiscais.
Não era mais possível apesar para o combate ao Comunismo para que os Estados Unidos exercessem sua influência mundial. O ataque de Bin Laden aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 marcou a virada da política externa americana, passando a adotar o terrorismo como pretexto para as ações militares desastradas no Oriente Médio.
O combate ao terrorismo justificou a invasão do Afeganistão em2001 e ao Iraque em 2003, que resultaram redundantes fracassos. Depois de muitas tentativas, anos de investimentos e uma derrota sensacional, os Estados Unidos se retiraram. Deveriam ter aprendido que a simples deposição de um governo não garante controle sobre o país atacado.
Agora, a bandeira do Narco Terrorismo é o pretexto para mais bloqueios e ataques a iminentes ameaças à soberania americana e o motor para tentar manter, de qualquer forma, o poder geopolitico que vem se deteriorando.
A Venezuela é mais uma das ameaças à capacidade de dominação americana. Ela ameaça romper os bloqueios a que está submetida
O estrangulamento da Venezuela
As sanções Americanas contra a Venezuela começaram em março de 2015, quando Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, as apresentaram colocando a Venezuela como uma ameaça à segurança nacional.
As sanções impediram a PDVSA de receber pagamentos por exportações de petróleo para os Estados Unidos, congelaram 7 bilhões de dólares em ativos da PDVSA nos EUA e impediram empresas norte-americanas de exportar nafta para a Venezuela.
A Ordem Executiva n. 13808, de Trump, de 2017, desencadeou uma nova onda de sanções financeiras que negaram à Venezuela o acesso a mercados de crédito internacionais, prejudicando severamente sua capacidade de exportação de petróleo.
Foi desta forma que a economia venezuelana foi sendo estrangulada e o povo destinado à uma grande pobreza.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos tentaram patrocinar um governo alinhado aos seus interesses. Em 2019, Juan Guaidó tentou derrubar o governo venezuelano, com o apoio dos Estados Unidos, países da Europa e outras forças latino americanas. A tentativa não deu certo. Guaidó não conseguiu mobilizar o povo venezuelano contra o governo e seu movimento foi formalmente encerrado em 2022. Em 2024, uma nova tentativa de derrubar o governo, com a frente liderada por Maria Corina Machado e Edmundo González não obteve sucesso.
Para romper o bloqueio econômico americano, a Venezuela passou a vender seu petróleo para outros países e conseguiu a China como seu maior consumidor. E a novidade foi que as transações deixaram e ser feitas em Petrodólares, mas em troca direta de mercadorias e serviços. Desde então, a economia petrolífera americana vem se recuperado gradativamente, a ponto de obrigar os Estados Unidos e voltar a consumir petróleo venezuelano.
O fato é que as tentativas de bloqueio econômico a um país, eficaz no passado, está perdendo força. O país sancionado procura alternativas e encontra em países do Sul Global, China Rússia, India entre outros, caminhos para impedir o estrangulamento. É o que está acontecendo com a Venezuela e que levou Trump a uma ação desesperada para derrubar o governo Maduro e constituir uma nova ordem no país.
O problema é que a estrutura de poder do Chavismo se mantém e os interlocutores patrocinados pelos Estados Unidos, incluindo Maria Corina, não possuem legitimidade para comandar uma mudança política no país. Trump sequestrou Maduro mas não derrotou o Chavismo.
Um precedente perigoso para a Doutrina Monroe
Ao utilizar a força para tentar controlar a Venezuela, Trump criou um precedente perigoso para a Doutrina Monroe.
Os governos latino-americanos passam a questionar: Se Trump fez isso com a Venezuela, pode fazer conosco quando for seu interesse.
Este receio está ativando imediatamente medidas de proteção nos países que estão no radar de Donald Trump, como o México e a Colômbia.
Gustavo Petro condenou o sequestro de Maduro, classificado como destruição do Estado de Direito Mundial e convocou a população a reagir a qualquer intervenção americana.
E quanto mais Trump pressiona, mais estes países começam a ver o multi lateralismo proposto pelo BRICS como uma alternativa.
A reação à ação militar americana foi imediata:
“Em comunicado conjunto divulgado neste domingo (4), Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, México e Uruguai condenaram o ataque militar orquestrado pelos Estados Unidos contra a Venezuela. Eles manifestaram, ainda, grande preocupação com as ações militares conduzidas pelo presidente norte-americano Donald Trump. 

Na nota, os governos dos seis países citam a gravidade das ações registradas na Venezuela e reafirmam sua adesão aos princípios previstos na Carta das Nações Unidas, documento que representa as aspirações e conquistas da humanidade em direção à paz.
A Doutrina Monroe e o Brasil
A direita brasileira se apressou em parabenizar Donald Trump, demonstrando submissão total à Doutrina Monroe. Esta elite o resultado de anos de colonialismo e submissão. Seus interesses estão profundamente associados aos interesses americanos.
Estes políticos falam em democracia, mas apoiam em todos os níveis os bolsonarismo e e defendem abertamente a anistia aos golpistas de 8 de janeiro. Também apoiaram o tarifaço de Trump, contra os interesses do país.
Coerente em sua posição, o governo brasileiro repudiou a ação militar e defendeu a soberania dos países e a solução dos conflitospela negociação. O Brasil também reafirmou seu compromisso com o multilateralismo das relações políticas e comerciais, posição que tem praticado na sua participação no BRICS.
A Soberania Nacional ou a submissão a Trump será o pano de fundo das eleições no Brasil em 2026.
A máquina das redes sociais será acionada a todo vapor para divulgar a propaganda a favor dos EUA. O combate ao PCC e CV serão novamente embalados nas mentiras sobre narco terrorismo.
Quem luta pela soberania precisará trabalhar intensamente para eleger um presidente e um congresso inteiro comprometido com as reais necessidades do país




